Vila Viçosa

Como sempre acontece, a parte de trás do autocarro foi a mais animada. Obrigados a abafar o ruído do motor encontraram no bom humor a melhor solução, e como em equipa vencedora não se mexe mantiveram-se unidos no seu propósito de arredar a chuva e o frio com a sua boa disposição.
A paragem para o café fez-se na estação de Montemor-o-Novo. Os dez minutos previstos cresceram para o dobro graças a calma alentejana das funcionárias, para exaspero da organização. Ainda assim chegámos a Vila Viçosa a tempo da visita guiada.
O Palácio de Vila Viçosa foi mandado construir pelos Duques de Bragança e como obra portuguesa que se preze levou cerca de 300 anos a ficar concluída. Aí viveu a família até 1640, ano em que D. João, futuro D. João IV, foi chamado para assumir a coroa portuguesa, restaurando a independência de Portugal após oitenta anos de domínio filipino. Vila Viçosa fica então associada a dois feriados nacionais: o 1º de Dezembro e o 8 de Dezembro, pois D. João IV nomeia Nossa Senhora padroeira do reino de Portugal em sinal de agradecimento pela nova casa em Lisboa e pelos terrenos com vista sobre o Atlântico e o Índico.
A visita percorreu todos os espaços do palácio, com excepção dos jardins e dos aposentos da criadagem, no andar superior. Pudemos apreciar as tapeçarias, os candelabros, os louceiros, a credência, os serviços de loiça, a seda adamascada que cobria as paredes e as paredes que pareciam que tinham seda e afinal eram pintadas, as armaduras que duvidamos que os nossos Braganças tenham vestido, de tão pequenas que eram e, a julgar pelos retratos nas paredes e nos tectos, duques e reis apreciavam o bom pão alentejano. De entre as peças, destacava-se o serviço de chá da duquesa D. Catarina, a mesma que introduziu o chá das cinco na corte de Carlos II de Inglaterra, seu marido. O serviço de chá reproduz o Santo Sepulcro e o chá nele contido tinha o propósito de acalmar uma preocupação bem terrena: teria o rei uma amante? Distraídas pelo perfume do chá e pelo doce dos bolinhos, perceberiam as damas da corte que a rainha as contava? Aquela que faltasse era a amante do rei.
Bom garfo, bom copo, dedo ligeiro no gatilho e no pincel, D. Carlos, primeiro e único, passou longas temporadas em Vila Viçosa. A tapada do palácio pejada de veados, coelhos e aves justificava a ausência da capital do Império. O talento artístico do rei está bem visível nos numerosos quadros que decoram as paredes do palácio, levando-nos a pensar que nascer rei nem sempre é um privilégio. E nascer alta também não. Numa época em que ser alta só trazia vantagens para ir aos figos, D. Amélia, a rainha consorte, bem deve ter desejado ser mais portuguesa, que é como quem diz «piquena como a sardinha». Com 1,86 m era obrigada pelo protocolo a estar sentada nas fotografias e a andar encurvada para disfarçar os 8 cm que faltavam ao rei. Este, porém, deve ter amado cada centímetro seu, dando o nome da esposa altaneira a quatro enormes iates, onde certamente teriam mais espaço para esticar as pernas – e o resto do corpo – pois naquelas caminhas que vimos deviam sobrar as pernas da rainha e a barriga redonda do rei.
A visita terminou na cozinha. Paredes, portas, chão e armários refulgiam com o brilho alaranjado das panelas, panelões, formas de pudim e de bolinhos. São mais de trezentas peças, areadas como manda a tradição: areia fina, limão e esfregão de palha d’aço, num esforço que dura dois meses. Com a imaginação alimentada pela fome e pelos elegantes menus pintados por D. Carlos e D. Amélia, quase conseguimos cheirar a sopa de cevadilha a apurar no fogão a lenha. Outros, com o corpo encolhido pelo frio, contemplavam os dois panelões usados para aquecer a água dos banhos de Suas Majestades.
Pouco mais tardava para que frio e fome fossem esquecidos. Migas, sopa de cação, vinho e sangria dariam outra cor às faces, fornecendo energia para o passeio da tarde em Évora, no rasto de Aparição, de Vergílio Ferreira.
                                                                                                                                                                                                                       Carla Piedade,       
                                                                                                                                                                                                            Professora de História